O que dizem os calçadistas sobre o “tarifaço” de Donald Trump

A indústria calçadista brasileira, que tem nos Estados Unidos seu principal destino internacional, vê o “tarifaço” de Donald Trump, anunciado nesta quarta-feira (2), por dois pontos distintos. Por um lado, segundo a Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados), uma tarifa adicional de 10% para produtos brasileiros pode abrir uma janela de oportunidades diante do imposto maior anunciado para concorrentes asiáticos. Já por outro, uma tarifa elevada para os grandes produtores mundiais também pode provocar uma inundação de calçados naquele continente em mercados importantes para o Brasil e até mesmo no mercado doméstico nacional.

Unidade produtiva da Vulcabras, maior fabricante brasileira de calçados esportivos
Alexandre Raupp Schebela/Divulgação Unidade produtiva da Vulcabras, maior fabricante brasileira de calçados esportivos

O presidente-executivo da Abicalçados, Haroldo Ferreira, cita que o pacote de tarifas anunciado, por exemplo, taxa a China em mais 34%, o Vietnã em mais 46% e a Indonésia em mais 32%. “São tarifas muito mais elevadas do que as aplicadas para o Brasil, o que pode tornar o nosso calçado mais competitivo nos Estados Unidos. Por outro lado, além de a medida diminuir o consumo naquele país, também deve fazer com que os asiáticos busquem alternativas para desovar sua produção. E, entre essas alternativas, certamente teremos o próprio mercado brasileiro e países para onde exportamos nossos calçados”, avalia.

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Novos impostos

Conforme dados levantados pela Inteligência de Mercado da Abicalçados, atualmente o imposto de importação para calçados brasileiros nos Estados Unidos é, em média, 17,3%. Ou seja, com o adicional de 10%, a tarifa passará a 27,3%. Já China, Vietnã e Indonésia, que têm uma participação de mercado de 58%, 24% e 8% no país norte-americano, respectivamente, também pagam uma média de 17,3%. Com os adicionais, os países passarão a pagar 51,3%, 63,3%, 49,3%, respectivamente. “Enfim, o tarifaço deve deixar o preço brasileiro mais competitivo nesse primeiro momento”, acrescenta Ferreira.

Atualmente, o Brasil detém 0,5% do mercado de importação de calçados nos Estados Unidos, número que pode avançar com as novas tarifas.

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Alerta

Se por um lado, o calçado brasileiro se tornaria mais competitivo em relação aos seus concorrentes asiáticos, preocupa a Abicalçados uma possível invasão de calçados produzidos naqueles países no mercado nacional. “Por isso, torna-se ainda mais importante a adoção de mecanismos antidumping contra Vietnã e Indonésia, para evitar concorrência desleal no varejo brasileiro”, explica o dirigente. Segundo Ferreira, o problema já foi levado para o governo federal e agora será reforçado com as autoridades.

Indústria gaúcha

Nas palavras do presidente da Federação das Indústrias do Rio Grande do Sul (Fiergs), Claudio Bier, “ainda é difícil dimensionar” os impactos do tarifaço de Donald Trump na indústria gaúcha.

“As informações ainda são muito iniciais, estamos procurando medir as consequências. Mas é certo que este novo cenário nos obriga a superar os desafios. Precisamos explorar as oportunidades que surgem, como do Mercosul com a União Europeia ou da ampliação da parceria com a China”, comenta Bier.

O dirigente da Fiergs cita que “há preocupação no caso de possível retaliação do Brasil e a configuração de uma guerra comercial”. O que na avaliação de Bier “trará resultados ruins para todo o mundo”. Entre os problemas, ele cita redução do fluxo de comércio, menos negócios e “tudo de ruim que ambientes de conflito trazem”.

Bier lembra que, na semana passada, as Federações das Indústrias do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná já solicitaram ao governo federal uma atenção especial nas negociações sobre as taxas impostas pelos Estados Unidos para produtos de base florestal. Agora, a preocupação se amplia com o aumento de sobretaxas a outros setores.

De acordo com o presidente da Fiergs, um dos efeitos imediatos da decisão de Trump para o Brasil e o Rio Grande do Sul pode ser a redução no volume de exportações para os Estados Unidos, especialmente em setores integrados à indústria norte-americana. Atualmente, já há tarifas de 25% aplicadas a todas as importações de aço e alumínio, por exempl. Embora os efeitos diretos a indústria gaúcha sejam pouco expressivos. Mas, a elevação de custos para os consumidores americanos por conta das tarifas, pode dificultar cortes de juros nos Estados Unidos. E, pode encarecer insumos para a indústria brasileira, especialmente no Rio Grande do Sul. “O Brasil deve seguir pautado pelo diálogo, avaliando cada caso de forma pontual. É preciso preservar uma postura negociadora com relação aos Estados Unidos”, avalia Bier.

(*) Com informações da Abicalçados e do Sistema Fiergs

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